Mudar de vida: de Portugal para Inglaterra

Há momentos em que a vida pede uma mudança.
Desde que eu e o Hugo nos conhecemos, sempre falámos sobre a vontade de viver fora de Portugal. Na realidade sonhávamos em mudar de vida, principalmente de carreira.

Estávamos cansados — por várias razões. As nossas carreiras já não nos preenchiam como antes. Além disso, passar longos períodos longe do Gabriel pesava cada vez mais. Eu queria acompanhar o crescimento dele de perto, sem a necessidade de o colocar na creche aos seis meses.

Em agosto de 2024, surgiu a oportunidade: o Hugo recebeu uma proposta de trabalho em Londres. Apesar de já termos falado sobre isso, o momento foi avassalador. De repente, surgiram todos os “e se” — o filho, a casa, o carro, os móveis, os prós e os contras.

Poderíamos ter focado no que podia correr mal, mas não o fizemos. O Hugo aceitou a proposta e começámos a planear a mudança. Tínhamos menos de três meses — de agosto a novembro — para organizar toda a nossa vida.

Quais os vistos para trabalhar e viver no Reino Unido?

Desde o Brexit, os cidadãos da União Europeia (UE) já não têm direito automático a viver ou trabalhar no Reino Unido. Portanto é necessário obter um visto adequado ao objetivo da estadia.

Os principais vistos para cidadãos da UE são:

  • Skilled Worker Visa – para quem tem uma oferta de trabalho qualificada no Reino Unido.
  • Health and Care Worker Visa – para profissionais das áreas da saúde e cuidados.
  • Global Talent Visa – para pessoas com reconhecimento nas áreas académica, científica ou cultural.
  • Graduate Visa – para quem estudou no Reino Unido e quer ficar a trabalhar.
  • Dependent Visa – para familiares diretos de titulares de vistos de trabalho ou estudo.
  • Family Visa – para familiares de cidadãos britânicos ou residentes permanentes.
  • Seasonal e Temporary Worker Visas – para trabalhos temporários, como agricultura ou eventos.

Cada visto tem critérios e custos diferentes. Por isso é essencial verificar, no site oficial do governo britânico, qual se aplica melhor a cada situação.

Como obtivemos os vistos para trabalhar e viver no Reino Unido

No nosso caso, o Hugo candidatou-se ao Skilled Worker Visa. Já eu e o Gabriel pedimos o Dependent Visa, como familiares diretos.
Iniciámos o processo em setembro, logo depois de o Hugo aceitar a proposta de trabalho. O facto de o empregador no Reino Unido já ser um licensed sponsor — ou seja, estar autorizado a contratar estrangeiros — ajudou bastante a simplificar todas as etapas.

Depois de receber o Certificate of Sponsorship (CoS), o documento essencial que confirma a oferta de trabalho qualificada, o Hugo pôde avançar com o visto.
No entanto, encontrámos um obstáculo inesperado: o teste de inglês.

O Hugo tinha um exame feito. Contudo não foi aceite porque os resultados só são válidos durante dois anos. Então, tentámos usar o facto de ele ter concluído um MBA em inglês. No entanto, isso também não foi suficiente pois teria de ser validado por uma entidade específica.
Acabámos por ter de marcar um novo exame. Ou seja, tudo isto fez-nos perder vários dias num calendário já bastante apertado.

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Tempo de processamento dos vistos para o Reino Unido

Após submetermos oficialmente o pedido do visto do Hugo, a aprovação demorou 1 mês.

Só depois disso pudemos submeter o meu pedido e o do Gabriel, pois somos dependentes.
Os nossos vistos também foram aprovados no espaço de 1 mês.

Embora tenhamos perdido vários dias devido ao novo exame de inglês, o tempo de processamento em si foi relativamente consistente com o prazo habitual.

Portanto, no total, demorou pouco mais de dois meses até termos os três vistos aprovados.

Custos dos vistos e taxas IHS no Reino Unido

O custo elevado dos vistos foi uma das áreas que mais nos surpreendeu.
Isto deve-se sobretudo à Immigration Health Surcharge (IHS). O IHS é a taxa que garante acesso ao serviço de saúde público britânico (NHS) durante todo o período do visto.

A IHS é cobrada por pessoa, incluindo crianças. Além disso, o tempo é sempre arredondado para cima. Ou seja, um visto de 2 anos e 1 dia paga 3 anos de IHS.

Aqui fica o que realmente tivemos de pagar, considerando que o nosso visto é de 2 anos:

  • Visto adulto: 902 €
  • Visto criança: 706 €
  • IHS adulto: 3 247,71 €
  • IHS criança: 2 630 €
  • Total: 11 635,42 €

Isto daria um total de 11 635,42 € para um agregado de 2 adultos e 1 criança. Mas, felizmente, os gastos de visto e IHS do Hugo estavam incluídos na proposta de emprego. Claro que não deixou de ser um investimento significativo e, sinceramente, uma parte do processo que muitas pessoas subestimam. No entanto é um passo obrigatório para garantir que a família chega ao Reino Unido com tudo regularizado e com acesso aos serviços de saúde.


Mudar de vida: Arrendar a nossa casa em Portugal?

Depois dos vistos, a decisão que mais nos ocupou a cabeça foi: compensa mais vender a casa ou alugá-la?
À primeira vista, parece uma escolha simples. Mas percebemos rapidamente que envolvia muitas camadasemocionais, financeiras e práticas.

Passámos dias a fazer contas, a imaginar cenários e a listar prós e contras. Mas não havia uma resposta perfeita. Havia apenas a resposta que fazia mais sentido para nós, naquele momento.

Em primeiro lugar, arrendar parecia uma solução sensata pois:

  • Mantínhamos um ativo em Portugal
  • Recebíamos um rendimento mensal que ajudava a amortizar o empréstimo ao banco
  • Mantínhamos um “plano B” caso, um dia, quiséssemos voltar
  • Não implicava um corte emocional tão definitivo

Era a opção mais confortável do ponto de vista emocional. No entanto, quanto mais pensávamos, menos peso havia do ponto de vista emocional. Sim, tínhamos passado bons momentos lá em casa. Mas já tínhamos vivido em tantas casas diferentes na nossa vida adulta que isso não estava a pesar tanto assim na decisão. Na verdade o que nos custava mais era o quarto do Gabriel.

Posto a parte emocional de lado, começamos a perceber os riscos e o peso da responsabilidade:

  • Problemas com inquilinos à distância
  • Manutenções e imprevistos estruturais
  • Ter de recorrer a intermediários
  • Impostos e burocracias
  • A preocupação constante

Queríamos começar a nossa vida em Londres com leveza. Portanto, arrendar significava carregar uma responsabilidade que não queríamos manter.

Mudar de vida: Vender a nossa casa em Portugal?

Outro fator que pesou muito foi o mercado imobiliário. Portugal estava — e continua — com valores extremamente inflacionados. Isso significava duas coisas:

  1. Era um bom momento para vender, financeiramente falando.
  2. Podia não voltar a surgir uma oportunidade tão favorável.

Além disso, outro fator que pesou muito foi o ano de construção e o estado do nosso apartamento.
Quando avaliávamos as opções, a primeira coisa que fizemos foi uma projeção financeira: quanto poderíamos receber mensalmente, durante quanto tempo e quanto isso realmente renderia no final.

E aqui estava o grande problema.

O nosso apartamento era antigo e, por mais bem localizado que fosse, isso afetava inevitavelmente:

  • o valor do arrendamento
  • o tipo de inquilinos que poderíamos atrair
  • a probabilidade de surgir manutenção frequente
  • e a rentabilidade final e a longo prazo

Quando colocámos tudo em números, percebemos que o rendimento do arrendamento não compensava o risco e o desgaste.
Mesmo com o mercado inflacionado, apartamentos antigos não seguem a mesma valorização que imóveis renovados — e o retorno esperado acabava por ser bastante mais baixo do que imaginávamos inicialmente.

O cenário real era este: iríamos ganhar relativamente pouco por mês e assumir um risco e uma responsabilidade enorme, à distância.

Investir as mais-valias no estrangeiro

Por fim, as mais-valias.

Uma das questões que mais pesámos na decisão de vender a casa foi o investimento das mais-valias — no futuro.

A nossa dúvida era se, após a venda da casa, podíamos comprar uma casa no Reino Unido e investir as mais valias da venda em Portugal.

A resposta é: sim, podemos.

Mesmo mudando de país, o Estado português permite que as mais-valias fiquem isentas de imposto, desde que:

  • o imóvel vendido em Portugal tenha sido habitação própria e permanente, e
  • o valor das mais-valias seja reinvestido na compra de outra habitação própria e permanente.

Ou seja, o facto de o Reino Unido ser fora da União Europeia não impede que esse reinvestimento seja aceite. Isto está previsto na lei portuguesa e continua válido após o Brexit.

Saber isto tirou-nos um peso enorme das costas.
Percebemos que, financeiramente, vender agora nos dava mais flexibilidade no futuro — e que não estávamos a “queimar” uma oportunidade caso quiséssemos estabelecer-nos definitivamente no Reino Unido dentro de alguns anos.

O conjunto de tudo isto levou-nos à conclusão clara:

A melhor decisão para a nossa família, naquele momento, era vender a casa.

Vender deu-nos:

  • liberdade financeira para recomeçar
  • tranquilidade para mudar sem preocupações
  • a sensação real de que estávamos a fechar um ciclo

Foi uma decisão emocionalmente e racionalmente libertadora — e foi nesse momento que percebemos, verdadeiramente, que estávamos a mudar de vida.

Como foi mudar de vida para o Reino Unido em pouco tempo

Depois de decidirmos que fazia mais sentido vender a casa, percebemos que tínhamos pela frente uma missão quase impossível: vender a casa e preparar toda a mudança em dois meses.
Só quem já mudou de país sabe o quanto isto exige — emocionalmente, logisticamente e fisicamente. Principalmente com um bebé.

Surge então outra questão: levar os móveis ou vender tudo?

Ao início até pensámos em transportar alguns móveis maiores. Mas quando recebemos os orçamentos das transportadoras internacionais, percebemos rapidamente a realidade: ficava absurdamente caro enviar mobiliário para o Reino Unido.

A decisão saiu praticamente sozinha: vender tudo online.

A nossa casa tornou-se num entra-e-sai constante de pessoas a comprar desde móveis grandes até peças pequenas que nem lembrávamos que tínhamos. Foi cansativo, mas libertador — e ajudou a financiar parte da mudança.

Então e o carro?

Transportá-lo não fazia sentido, por imensas razões mas principalidade porque seria incomodo visto que no Reino Unido o volante é à direita.

Foram dois meses a empacotar o que realmente íamos levar: documentos, eletrónica, livros e roupas.

Depois contratámos uma transportadora para enviar as caixas para Londres. Encontramos a transportadora num facebook de portugueses no Reino Unido. Mesmo sem móveis, foi um processo minucioso porque tivemos de organizar o envio para que chegasse depois de estarmos no país.

Além disso, há sempre imprevistos que acontecem e que nunca contamos com eles. Por exemplo, o mau tempo interfere com que as transportadoras terrestre possam atravessar o canal da mancha.

Houve dias exaustivos, mas também houve uma sensação constante de propósito. Cada caixa fechada, cada móvel vendido e cada tarefa concluída aproximava-nos mais da nova vida que queríamos construir.

Quando finalmente entregámos as chaves e fechámos a porta pela última vez, percebemos que aquele capítulo tinha terminado — e que estávamos prontos para começar outro, juntos.

Mudar de vida: A chegada ao Reino Unido e os primeiros dias

Depois de meses de papelada, vendas, despedidas e planeamento, o dia de mudar de vida finalmente chegou. Por mais preparados que estivéssemos, aterrar no Reino Unido com malas, caixas a caminho e um bebé ao colo é sempre um choque — bom, intenso e emocional.

O primeiro pensamento que veio à cabeça foi: “Estamos mesmo aqui”.

E, pelo menos, já não tínhamos que empacotar mais caixas.

Como acontece com muitos estrangeiros que chegam a Londres, não tínhamos casa ainda. Na realidade isso só é possível quando vão viver com amigos ou familiares.

Portanto, reservamos um Airbnb para o primeiro mês. Foi uma solução prática, ainda que cara, mas que nos permitiu ter um ponto de partida enquanto procurávamos um apartamento definitivo.

Achávamos que os primeiros dias seriam ocupados com tarefas básicas, como abrir conta bancária ou comprar cartões SIM. Mas rapidamente percebemos uma realidade que ninguém nos tinha explicado bem:

Para abrir conta bancária é preciso ter prova de morada. E para alugar casa, muitas vezes, pedem conta bancária.

Um clássico “círculo fechado” que também se aplica aos contratos de telemóvel.

Tudo parecia depender de algo que só se conseguia ter depois de já estar instalado.
Foi frustrante no início, mas também fez parte do processo de perceber como o sistema funciona — e de nos adaptarmos. Só conseguimos ultrapassar estas barreiras depois de visitar várias imobiliárias, até que finalmente encontrámos uma disposta a ser mais flexível.

Com isto, quero dizer que é um processo difícil mas não é impossível.

Além disso, mesmo com estas dificuldades, havia uma sensação constante de frescura.

Aquela sensação de estar a viver uma versão nova da nossa vida, com tudo por construir, é algo difícil de explicar.

Alugar a primeira casa no Reino Unido

Se há algo que subestimámos na nossa mudança para o Reino Unido, foi o quão desafiante seria encontrar uma casa em Londres.

Antes de mudarmos, definimos alguns critérios essenciais para escolher onde viver:

  • Distância do trabalho
  • Acesso a transportes
  • Preço
  • Segurança e ambiente
  • Proximidade a parques e serviços

Percebemos rapidamente, que Londres é enorme e a diferença de preços entre zonas pode ser absurda. Por isso, optámos por procurar fora da cidade e escolhemos uma localidade no distrito de Essex. Foi nessa zona que reservámos um Airbnb para as primeiras semanas.

O plano parecia simples: um mês seria suficiente para visitar casas, tratar da papelada e mudar-nos. No entanto, a realidade foi bem diferente. Mesmo numa zona menos competitiva, arrendar casa revelou-se muito mais difícil do que esperávamos.

Sem histórico britânico, sem conta bancária, sem comprovativos locais. Cada agência pedia documentos diferentes. Algumas nem aceitavam candidaturas sem conta bancária; outras mostravam desconfiança por sermos recém-chegados ao país.

Como se tudo isto não bastasse, entretanto recebemos a notícia de que as nossas coisas iam chegar do transporte — e ainda não tínhamos casa. Tivemos de agir rapidamente e alugar um espaço de self-storage, onde as caixas ficaram guardadas durante semanas.

Inicialmente, procurávamos um T2 para que o Gabriel tivesse o seu próprio quarto. No entanto, acabamos por encontrar um T1 totalmente remodelado que nos conquistou pela qualidade, preço e localização. Na prática, o Gabriel iria continuar a dormir no nosso quarto durante mais algum tempo, seguindo as recomendações da OMS.

Foram semanas de incerteza mas quando finalmente entrámos no nosso apartamento, a sensação de alívio foi indescritível. Estávamos na nossa primeira casa no Reino Unido!

Conclusão: mudar de vida não é fácil mas é atingível

Olhar para trás e perceber tudo o que fizemos em tão pouco tempo. Vender a casa, tratar dos vistos, organizar a mudança, procurar um novo lar e recomeçar do zero noutro país. Na verdade, ainda nos parece surreal.

Houve incerteza, imprevistos e muitos momentos em que tivemos de respirar fundo. Mas houve também entusiasmo, união e a sensação constante de que estávamos a fazer o que era certo para nós e para o Gabriel.

Agora que estamos finalmente instalados, começa uma nova fase. Adaptar-nos ao país, criar rotinas, descobrir serviços, perceber como tudo funciona. Mas isso ficará para o próximo capítulo. A nossa história de mudança não acaba aqui, está só a começar.

Obrigada por leres a nossa história.

Já pensaste em mudar de vida? Ou já passaste por uma grande mudança? Conta-nos tudo nos comentários!

Até à próxima encrenca!

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