Amamentação: devo ou não amamentar? Serei capaz?

A amamentação é frequentemente apresentada como o melhor caminho.

Contudo, raramente falamos com clareza sobre vários aspetos. Isto é, como o leite materno funciona, como protege o bebé e como também beneficia a saúde da mãe.

Durante muito tempo, a amamentação foi tratada apenas como uma forma de alimentar o bebé. Mas, hoje, a ciência mostra que ela é muito mais do que isso.

No entanto, apesar dos benefícios amplamente comprovados, a experiência de amamentar nem sempre é simples. Pode envolver dor, insegurança, exaustão e muitas dúvidas. Falar sobre amamentação com base científica, mas também com honestidade e acolhimento, é essencial para que mais mulheres se sintam informadas.

Por isso, o objetivo deste artigo não é impor a amamentação como regra absoluta. É explicar, com base científica, como o leite materno funciona, como protege o bebé e como também beneficia a saúde materna.

Acredito que compreender esses benefícios, é essencial para promover decisões informadas e respeitosas. Na verdade, a maior parte das dificuldades na amamentação não se devem à incapacidade da mulher. Estão sim relacionadas a falta de apoio, informação inadequada ou ausência de acompanhamento profissional.

Quando há informação e orientação correta muitas dificuldades podem ser prevenidas ou resolvidas.

Amamentação

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Como funciona o leite materno

O leite materno não é um alimento estático. É um fluido biológico vivo, dinâmico e adaptável [1].

A composição do leite materno muda:

  • Ao longo dos meses, acompanhando o crescimento do bebé;
  • Ao longo do dia — o leite noturno contém maiores concentrações de melatonina e triptofano, ajudando a regular o sono [4];
  • Durante situações de doença, ajustando componentes imunológicos [5].

Essa capacidade de adaptação é algo único do leite humano.

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Benefícios da amamentação para o bebé

Os benefícios da amamentação para o bebé incluem:

  • Nutrição completa e adaptada à idade
    Fornece todos os nutrientes necessários nos primeiros meses de vida e adapta a sua composição conforme o bebé cresce [1].
  • Proteção imunológica ativa
    Contém anticorpos, células de defesa e fatores anti-inflamatórios. É por isso que reduz o risco de gastroenterites e infeções respiratórias [1,3].
  • Menor risco de doenças ao longo da vida
    Estudos associam a amamentação à redução do risco de obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças crônicas na vida adulta [3].
  • Regulação do sono e ritmo circadiano
    A composição do leite varia ao longo do dia. À noite, apresenta maiores concentrações de melatonina e triptofano. Portanto, ajuda o bebé a organizar o ciclo sono–vigília [4].
  • Resposta personalizada quando o bebé está doente
    Evidências indicam que o leite materno pode oferecer proteção direcionada. Isto é, aumentar componentes imunológicos específicos quando o bebé apresenta infeção [5].
  • Proteção quando a mãe está doente
    Quando a mãe entra em contacto com um agente infeccioso, o organismo produz anticorpos que são transferidos pelo leite. De tal forma que ajuda a proteger o bebé ou a reduzir a gravidade da doença [1].

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno exclusivo (AME) até os 6 meses de vida. Além disso, o complementar deverá ser feito até pelo menos os 2 anos [2]. Estas recomendações são feitas com base em evidências robustas sobre os benefícios da amamentação para a saúde materno-infantil.


Benefícios da amamentação para a mãe

A amamentação também traz impactos significativos para a saúde materna a curto e longo prazo:

  • Recuperação mais rápida no pós-parto
    A liberação de ocitocina durante a amamentação promove contrações uterinas e reduz o risco de hemorragia pós-parto [1].
  • Redução do risco de câncer de mama e ovário
    Evidências epidemiológicas mostram efeito protetor significativo ao longo da vida [3].
  • Proteção metabólica
    Está associada à redução do risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares [3].
  • Maior gasto energético
    A produção de leite exige elevado consumo calórico. É por isso que pode contribuir para a recuperação gradual do peso pré-gestacional.
  • Benefícios emocionais e fortalecimento do vínculo
    A libertação de ocitocina e prolactina está relacionada à sensação de bem-estar e conexão entre a mãe e o bebé [1,2].
  • Prático e económico
    O leite materno está sempre pronto e à temperatura ideal. Além disso, é extremamente económico.

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Desafios e possíveis dificuldades da amamentação

Embora os benefícios, a amamentação pode envolver desafios físicos, emocionais e sociais que merecem atenção:

  • Dor e fissuras mamilares
    Dor intensa, rachaduras e sangramentos geralmente estão associados à pega inadequada. Embora comuns no início, não devem ser normalizados e requerem orientação adequada.
  • Mastite e ingurgitamento mamário
    Envolve sintomas como inflamação da mama, febre e dor. Isto pode ocorrer, especialmente quando há esvaziamento inadequado. Por tudo isto, pode ser necessário tratamento médico [1].
  • Exaustão física
    A amamentação em livre demanda, especialmente nos primeiros meses, pode gerar privação de sono e cansaço significativo.
  • Sobrecarga emocional e pressão social
    A idealização da amamentação pode provocar sentimentos de culpa quando surgem dificuldades. A saúde mental materna deve ser prioridade.
  • Impacto no retorno ao trabalho
    Falta de licença adequada e ausência de espaços apropriados para extração de leite podem dificultar a manutenção do aleitamento.
  • Situações clínicas específicas
    Em raros casos (como infeções específicas ou uso de determinados medicamentos), pode ser necessário suspender temporariamente ou adaptar a amamentação [2].

E se eu não conseguir amamentar?

Nem todas as histórias de amamentação seguem o percurso idealizado.

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Do ponto de vista físico, as condições que impedem fisiologicamente a produção ou transferência de leite são raras. Na verdade, apenas entre cerca de 1 % a 5 % das mulheres não conseguem amamentar por razões puramente fisiológicas [6].

Isto significa que algo no próprio corpo da mulher está a causar o problema e o funcionamento normal de uma glândula ou órgão está comprometido.

Atualmente, é evidente que a maioria das mulheres inicia a amamentação. No entanto, uma proporção significativa interrompe nos primeiros seis meses, ficando aquém das recomendações das autoridades de saúde.

Durante um estudo realizado em Portugal, em 2023, obteve-se as seguintes taxas de amamentação [7]:

MomentoAleitamento MaternoAleitamento materno exclusivo (AME)
Na alta hospitalar94,3%74,2%
Aos 3 meses78,2%51,8%
Aos 6 meses64,4%25,6%

Portanto, não conseguir amamentar ou manter a amamentação não é raro nem uma falha pessoal. São situações reais que acontecem com muitas mulheres e que merecem compreensão, acolhimento e suporte profissional.

Por tudo isto, é necessário identificar quais as razões para a interrupção precoce da amamentação.

Motivos para a interrupção precoce da amamentação

Os motivos para interrupção precoce da amamentação estão intrinsecamente relacionadas com as dificuldades enfrentadas no início do processo. Mas não só.

A interrupção do AME pode estar associada a [7]:

  • Atraso no contacto pele a pele;
  • Internamento do bebé em unidade de terapia intensiva;
  • Uso de chupeta e bicos artificiais;
  • Retorno precoce da mãe ao trabalho;
  • Menor nível de escolaridade.

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Por outro lado, o que incentivou a AME foram os seguintes fatores:

  • Idade materna mais avançada;
  • Peso adequado ao nascer;
  • Início da amamentação na primeira hora de vida;
  • Alojamento conjunto;
  • Ausência de doenças no bebé.

No entanto, as razões para a interrupção ultra precoce do aleitamento materno (primeiros 2 meses), são ligeiramente diferentes [8,9]:

  • Inicio tardio da amamentação;
  • Menor peso ao nascer;
  • Instabilidade emocional no pós parto;
  • Falta de acompanhamento adequado (contribuindo para problemas na mama e pega incorreta);
  • Perceção de leite insuficiente.

Contudo, a maior duração de aleitamento, esteve correlacionada com:

  • Idade materna mais avançada;
  • Contexto cultural;
  • Estabilidade emocional;
  • Humor infantil

Por tudo isto, é necessário enfatizar a importância do acompanhamento adequado. Mas também a saúde emocional materna e a influência do temperamento infantil no sucesso da amamentação.

Conclusões

A ciência é clara quanto aos seus benefícios da amamentação. No entanto, os dados mostram que a amamentação continua a ser um desafio real para muitas mulheres.

A maioria das mulheres é biologicamente capaz de amamentar, sendo a incapacidade fisiológica muito rara. Ainda assim, existem imensos fatores que desempenham um papel determinante na interrupção precoce. Nomeadamente, dificuldades técnicas, dor, exaustão, regresso ao trabalho, falta de apoio e fatores emocionais.

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Portanto, a questão não é apenas biológica — é social, emocional e estrutural.

Quando a amamentação enfrenta obstáculos que persistem, é essencial procurar apoio qualificado. Seja de consultoras de lactação, enfermeiras ou médicos. Este apoio irá ajudar a explorar opções que favoreçam conforto e bem-estar. E se, por qualquer motivo, amamentar não for possível ou sustentável, a decisão de procurar alternativas seguras e eficazes também merece respeito e apoio. Sempre com foco no bem-estar da mãe e do bebé.

Por isso, talvez a pergunta não seja apenas “devo ou não amamentar?”, mas sim:

  • Tenho informação adequada?
  • Sei onde procurar apoio qualificado?
  • Sinto-me emocionalmente acompanhada?
  • Estou a ser respeitada nas minhas decisões?
  • Tenho uma rede de apoio que respeita as minhas decisões?

Promover a amamentação não significa impor.
Significa criar condições para que ela seja possível, segura e sustentável para quem deseja amamentar.

A amamentação não precisa de pressão — precisa de apoio.

Se este artigo fez sentido para ti, partilha com outra mãe que possa precisar de informação clara e sem julgamentos.

Até à próxima encrenca!

Referências científicas

  1. Ballard, O., & Morrow, A. L. (2013). Human milk composition: Nutrients and bioactive factors. Pediatric Clinics of North America, 60(1), 49–74. https://doi.org/10.1016/j.pcl.2012.10.002
  2. World Health Organization. (2023). Infant and young child feeding. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/infant-and-young-child-feeding
  3. Victora, C. G., Bahl, R., Barros, A. J. D., França, G. V. A., Horton, S., Krasevec, J., Murch, S., Sankar, M. J., Walker, N., & Rollins, N. C. (2016). Breastfeeding in the 21st century: Epidemiology, mechanisms, and lifelong effect. The Lancet, 387(10017), 475–490. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(15)01024-7
  4. Cubero, J., Valero, V., Sánchez, J., Rivero, M., Parvez, H., Rodríguez, A. B., & Barriga, C. (2005). The circadian rhythm of tryptophan and melatonin in breast milk affects the sleep of newborns. Journal of Nutritional Biochemistry, 16(2), 91–96. https://doi.org/10.1016/j.jnutbio.2004.08.011
  5. Riskin, A., Hochwald, O., Bader, D., Srugo, I., Naftali, G., Kugelman, A., Schimmel, M. S., & Pariente, G. (2012). Changes in immunomodulatory constituents of human milk in response to active infection in the nursing infant. Pediatric Research, 71(2), 220–225. https://doi.org/10.1038/pr.2011.34
  6. Akre, J. (1989). Health factors which may interfere with breast‑feeding. Bulletin of the World Health Organization, 67(Suppl.), 41–54. World Health Organization.
  7. Branco, J., Manuel, A. R., Completo, S., Marques, J., Rodrigues Antão, R., Pinto Gago, C., Paulino, E., Voutsen, O., & Barroso, R. (2023). Prevalence and predictive factors of exclusive breastfeeding in the first six months of life. Acta Médica Portuguesa, 36(6), 416-423, https://doi.org/10.20344/amp.18692
  8. Vargas-Pérez, S., Hernández-Martínez, C., Canals-Sans, J., & Arija, V. (2025). Factors influencing breastfeeding initiation, duration, and early cessation: A focus on maternal and infant characteristics. International Breastfeeding Journal, 20(1), 49. https:/doi.org/10.1186/s13006-023-00741-5.
  9. Anholetto, A. C. (2021). Dificuldades com a amamentação e desmame antes de dois meses de idade: estudo de coorte em Botucatu/SP (Dissertação de mestrado). Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. http://hdl.handle.net/11449/214945

2 comentários

  1. Excelente informação!
    Uma recomendação seria complementar estas informações com doenças crónicas na mãe, nomeadamente diabetes tipo1.
    Obrigada

    • Muito obrigada pelo seu contributo, Rute.
      Vou fazer uma pesquisa sobre isso e se encontrar informação relevante irei adicionar a este artigo ou escrever um novo.
      Obrigada!

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